
Leio postagem do
jornalista Paulo Henrique Amorim em que ele fornece duas informações cruciais
porque conduzem a uma reflexão que já passou da hora de ser feita. PH, que
sabe das coisas, diz que o governo Dilma não fará “ley de medios” alguma
porque acredita que a tecnologia dará conta do recado. São, portanto, duas
informações. Vamos a elas.
Não chegará a ser
surpresa se o governo Dilma ou o Congresso não propuserem uma lei da mídia de
verdade, como a da Argentina, a dos Estados Unidos ou a da França, entre
tantas outras. Um governo que não consegue nem impedir que a mídia lhe
derrube um ministro por mês certamente não teria força para aprovar uma lei
que a mesma mídia não quer.
A outra informação é a de
que o governo, simplificando a explicação, aposta na fusão da tevê e do rádio
com a internet e na entrada das teles (empresas de telefonia) na produção de
conteúdo. Com o tempo, os meios impressos e eletrônicos terão que migrar para
a internet. Então, serão obrigados a disputar público com empresas que têm
muito mais recursos.
Nenhum outro país
sul-americano que elegeu governo oriundo da esquerda está esperando que o fim
do monopólio da direita nas comunicações lhe caía no colo. Isso porque a esquerda
brasileira difere completamente da que há em países como Argentina, Bolívia,
Equador, Paraguai, Uruguai ou Venezuela.
Nesse contexto,
Argentina, Bolívia, Equador e Venezuela são os países da região que
enfrentaram as lutas mais duras para aprovar uma “ley de medios”. Por que os
governos desses países optaram por não ficar esperando que a tecnologia
acabasse com o oligopólio nas comunicações? Não seria melhor do que
enfrentarem até tentativas de golpe por terem desafiado o principal
sustentáculo da direita no Terceiro Mundo?
Hugo Chávez, o casal
Kirchner, Evo Morales, Rafael Correa sabem que a influência desses impérios
de comunicação entranhou-se nas sociedades latino-americanas e que, por isso,
eles acabariam se compondo com as teles e migrando para as novas plataformas.
Por isso não ficaram esperando a democratização da comunicação cair do céu.
O Brasil, porém, está
preferindo o auto-engano. Isso ocorre porque, à diferença da esquerda de
outros países que finalmente elegeram governos progressistas, a centro-esquerda
brasileira se deixou amaciar, amansar e, em boa medida, cooptar pelo capital
e suas delícias.
Já a esquerda mais
radical (no bom sentido), que mantém seus dogmas intocados tanto aqui quanto
nos países que adotaram projetos de centro-esquerda baseados em crescimento
econômico fomentado pelo Estado e em intensa inclusão social, não é opção por
acalentar dogmas incompatíveis com a realidade global contemporânea.
Na América do Sul
progressista que vai se desenhando, portanto, o Brasil é o único país em que
a centro-esquerda governa, mas no qual quem manda é a direita.
Tudo decorre, por aqui,
da inevitável aproximação da centro-esquerda com os setores “pragmáticos” da
direita que se aliam até ao diabo para se manter próximos ao poder. Com
governos de coalizão como o atual ou o anterior, nos quais coube e cabe um
partido de centro-direita como o PMDB, a centro-esquerda petista decidiu
relaxar e gozar.
Essa esquerda acomodada e
festiva se perdeu em autocongratulações e convescotes, no desfrute da fartura
do poder e de tudo que o dinheiro público pode comprar. Acabou, assim, por
ceder as ruas à direita –hoje, vemos a situação inusitada de a direita estar
conseguindo pôr mais gente na rua do que a esquerda.
Por conta disso – e à
diferença de outros países sul-americanos governados pela esquerda –, nenhuma
reforma estrutural de verdade foi feita no Brasil nesses quase dez anos de
governo do PT. Ou seja: se um governo de direita voltar ao poder, desmontará
facilmente todos os avanços sociais logrados até aqui.
Bolsa Família, Prouni,
exploração do Pré Sal, fomento do crescimento pelo Estado, tudo pode virar pó
em questão de meses se a direita voltar ao poder. Políticas públicas
concentradoras de renda podem voltar a ser aplicadas, programas sociais podem
ser desinflados.
Enfim, se o PSDB volta ao
poder em 2014, tudo o que os setores que estão ascendendo socialmente
lograram nos últimos anos pode ser perdido rapidamente.
Falemos do Pré Sal, por
exemplo. Muitos devem ter lido as revelações do Wikileaks sobre as reuniões
entre José Serra e as petroleiras estrangeiras durante as eleições do ano
passado e as promessas que ele fez de mudar o regime de exploração do Pré Sal
de partilha para concessão. Em 2015, se esse ou qualquer outro tucano for o
presidente, a mudança ocorrerá.
Detalhe: se o modelo
tucano de concessão for usado na exploração do pré Sal, os estrangeiros
novamente se fartarão com o patrimônio público brasileiro como fizeram na
época da privataria. As petroleiras alienígenas sugarão todo o petróleo e nos
darão uma gorjeta por deixarmos que seja tirado daqui.
Em vez de lutar pela
diluição da capacidade da direita de falar sozinha na mídia, o que tornaria o
jogo eleitoral mais equânime, a centro-esquerda brasileira parece acreditar
em alguma força mística que a manterá no poder. Despreza o fato de que uma
eventual redução no nível de atividade econômica colocará fim à sensação de
bem-estar que vem mantendo o PT no poder.
Não que o Brasil esteja
sendo mal governado. Dilma Rousseff é uma boa gerente. Está cheia daquelas
boas intenções das quais o inferno está cheio. Uma delas é a de não
conflagrar o país politicamente, adotando tática de distensão que a está
levando a ceder e ceder e ceder politicamente, ainda que esteja gerenciando o
governo com a competência que a consagrou.
Todavia, o Brasil não tem
mais um líder político – tem uma gerente competente, honesta e
bem-intencionada, mas apenas uma gerente. Sem liderança política, o povo se
despolitiza. Despolitizado, torna-se presa fácil para o canto da sereia reacionário
que vai turvando o debate público com a lente conservadora.
Enquanto o venezuelano
mais humilde conhece hoje, de trás para frente, a constituição de seu país,
lida e explicada pelo Estado nas favelas urbanas e em cada rincão da
Venezuela, o brasileiro não tem nem idéia do que está por trás do jogo do
poder e continua acreditando na predestinação dos ricos e na fatalidade de
que padeceriam os pobres.
Enquanto isso, a cena que
se vê na esquerda brasileira lembra a da orquestra do Titanic, que tocava
animadamente no convés enquanto o navio afundava.
A esquerda festiva
precisa parar de festejar, de se congratular e de, não raro, refestelar-se
com dinheiro público. Urge que se dê conta de que o poder não lhe pertence,
de que lhe foi apenas delegado. Tem que começar a semear já mudanças
estruturais que impeçam que eventual volta da direita ao poder desmonte tudo
que foi feito na década passada.
|
0 comentários:
Postar um comentário